- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Damasco (donsu) e damasco Dōgen (Dōgen-donsu)

Faremos aqui uma introdução ao kobukusa 古帛紗, o lenço de seda pequeno que, na sala de chá estilo Urasenke, é usado principalmente para se servir o chá ao convidado ou convidada, apoiando-se sobre ele a tigela chawan.  Discutiremos sobre o tradicional tecido de seda com o qual se faz um kobukusa, o chamado kireji 裂地, sobre sua história, e apresentaremos algumas das várias técnicas de tecelagem e padronagem.  Normalmente o lenço kobukusa é carregado discretamente dentro do kimono, junto ao lenço de seda grande, fukusa 袱紗 e aos de papel, kaishi 懐紙; quando, porém, o kobukusa é retirado para apoiar o chawan, adornando-o com suas variadas figuras coloridas em seda macia, a sala de chá certamente ganha um pouco mais de exuberância e vivacidade.

Um kobukusa tem aproximadamente ¼ do tamanho de um lenço grande, fukusa; e, ao contrário deste, no caso do kobukusa não há uma regra estrita sobre quais cores seriam adequadas a homens ou mulheres.  O tipo de tecido adequado para se produzir um kobukusa é o kireji mencionado acima; dentre os vários kireji, aqueles que são especialmente renomados por sua proveniência histórica, apuro técnico, esplendor estético etc. recebem o título de meibutsugire 名物裂 (“kireji de renome”).  O elevado valor artístico de tais tecidos há muito tem feito deles objetos de intensa apreciação.  Devido a isto, eles são empregados no chá não apenas na forma de kobukusa, mas também para fabricar as bolsas shifuku 仕覆 que abrigam os preciosos potes de cerâmica para chá, os chaire 茶入.

 

Quanto à denominação e classificação de tecidos kireji 裂地

Há inúmeras técnicas distintas de tecelagem que resultam em tecidos de natureza distintas.  Os tecidos kireji são classificados primeiro em grandes categorias, tomando por critério a técnica de tecelagem, e em segundo lugar recebem um nome segundo sua padronagem figurativa.  Dentre as grandes categorias podemos citar o donsu 緞子 (damasco), o kinran 金襴 (brocado com fios de ouro), o kantō 間道 (tecido em listras verticais), o nishiki 錦 (brocado de fio colorido variegado), o shōha 紹巴 (tipo de tecelagem chinesa que resulta em um pano macio), o mōru (tecido de origem indiana com fios de ouro enrolados em torno de linha de seda), e muitos outros.  Nesta ocasião, iremos nos deter sobre o damasco ou donsu, e trataremos como meibutsugire (tecido de renome) representativo o damasco denominado Dōgen-donsu 道元緞子.

 

A técnica de tecelagem donsu 緞子 (damasco)

A tecelagem é a técnica de se fabricar tecido a partir de linha.  Seu fundamento é cruzamento da linha em duas direções: por uma malha vertical de fios, chamada “urdidura” (縦糸 tate-ito), entrecruza-se a linha horizontalmente, o que se chama “trama” (緯糸 nuki-ito ou 横糸 yoko-ito).  No caso do damasco (donsu), usa-se linha de seda em cores distintas para cada direção (a trama em uma cor e a urdidura em outra). Existem várias estruturas possíveis para se cruzar a trama e urdidura, que são chamadas “ligamentos” (ori 織).  O donsu é tecido no ligamento chamado “cetim” (shusu-ori 朱子織), no qual a trama e urdidura são enlaçadas de tal forma que a linha passa por baixo de uma sequência de várias linhas antes de emergir (ver figura abaixo). O cetim mais usado é o de 5 linhas (gomai-shusu 五枚朱子), no qual a trama passa por baixo de 4 linhas de urdidura e emerge na quinta, ou vice-versa.  

Cetim de 5 linhas (gomai-shusu)

Tecendo-se o fundo em cetim, predomina a cor de uma linha; revertendo-se a tecelagem, passa a predominar a cor da outra linha, criando um contraste de cores com o qual se desenham figuras.

Criando figuras

O resultado é um tecido que, mesmo com figuras brocadas, permanece fino e macio, passando a sensação de brilhoso.
(O cetim é um dos três tipos básicos de ligamento; os outros dois são o tecido simples (hira-ori 平織), também chamado trama, tela ou tafetá, no qual a trama e a urdidura alternam-se a cada ponto; e a sarja (aya-ori 綾織), no qual a linha emerge em um padrão diagonal. No caso do cetim, como mencionado acima, os pontos onde a linha emerge são poucos, de forma que por grandes trechos uma única linha predomina “flutuando” sobre a outra.  Os pontos onde a linha de trás emerge não são adjacentes, porém distribuem-se de forma regular, pipocando regularmente no lado frontal.)

fonte: Chanoyu Quarterly #17

 

Tipos de ligamento: Tafetá, sarja e cetim.

 

O Dōgen-donsu 道元緞子

Vejamos um exemplo de meibutsugire (tecido de renome) cuja estrutura é o donsu, que acabamos de examinar.  O Dōgen-donsu recebe este nome porque, segundo a tradição, este era o tecido kireji usado no robe budista (kesa) do monge Dōgen, o famoso fundador da escola Sōtō Zen. Diz-se também que a origem deste kireji é chinesa, datando da dinastia Sòng (século XIII) e chegou ao Japão no século XIV. Nesta padronagem, arabescos (karakusa 唐草) com pequenas flores espalham-se horizontalmente, para ambos lados; sobre eles sobrepõe-se figuras de flores maiores e borboletas.

Março de 2017

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