- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Entrevista com a professora Mayumi Kawamura Madueño do Colégio Oshiman

A entrevistada desta 17ª edição foi a professora Mayumi Kawamura Madueño do Colégio Oshiman.  Nesta, abordamos assuntos relacionados à proposta pedagógica própria do Colégio Oshiman onde existe a aprendizagem da Cultura Japonesa em terras brasileiras, sua experiência e aspirações.

Perfil

Nascida em São Paulo, é da terceira geração de uma família japonesa
Constituição familiar –  marido, 2 filhos e 1 filha
Hobby – Jogging (pratica há 26 anos e já participou da São Silvestre, percorrendo 15km e da Meia Maratona do Rio de 21km)

 

Entrevistador: Fale-nos sobre o Colégio Oshiman, da fundação aos dias de hoje

O início de tudo foi com a minha mãe. Nascida em Botucatu, São Paulo, foi para o Japão aos 12 anos de idade para uma imersão de 6 meses pois possuía a dupla nacionalidade. Passou a época da segunda guerra mundial no Japão e se formou pedagoga após 11 anos de permanência neste país. Em 1952 retornou ao Brasil e fundou uma escola de língua japonesa com foco na formação humana. Queria, através do ensino da língua e da cultura japonesa, ensinar a importância da paz e a bênção da vida.

 

Entrevistador: A maior parte dos alunos do Colégio Oshiman é brasileiro?

A maioria dos alunos são descendentes de japoneses. Como as primeiras línguas estrangeiras o japonês e o inglês, inevitavelmente, acabam sendo procurados por nikkeys mas 90% dos pais dos mesmos não dominam a língua japonesa. Ao passar das gerações a língua e a cultura japonesa passou a não ser mais a prioridade da comunidade nikkey, porém ao se tornar adulto passa a sentir falta de buscar a fundo a sua raiz, este é um dos motivos pelo qual o Oshiman é procurado pelos descendentes nipônicos. Porém, precisamos cumprir com louvor a nossa função como escola regular brasileira e colocar a língua e a cultura japonesa como um projeto pedagógico que venha a somar.

 

Entrevistador: Isto quer dizer que a escola tem em sua base uma Escola “brasileira”

Sim. Quando fundamos a escola era para criar um espaço onde pudéssemos provar que não existe nenhuma criança sem qualidades e o papel da escola é descobrir o potencial que cada aluno possui, pois, acreditamos que, todos recebem o dom da vida carregando uma missão.

Acreditamos que esta educação onde há a junção da pró-atividade e capacidade de se colocar do povo brasileiro com a serenidade e a preocupação com o próximo do povo japonês, trará o que o oriente e o ocidente tem de melhor para a formação de nossos alunos.

 

Entrevistador: Que diferencial pode ser encontrado na Grade Curricular?

As aulas são ministradas na língua portuguesa e temos 3 aulas semanais da língua japonesa, 3 aulas da língua inglesa e a partir do fundamental II incluímos 2 aulas semanais de língua espanhola.

Nas aulas de japonês são utilizados livros didáticos japoneses pois acreditamos que a língua e a cultura andam juntas, sendo assim com este uso a cultura viva nos invade a cada aula.

O Oshiman desenvolve a competência musical e artística com muita profundidade. O Brasil apesar de ser rico artisticamente, o seu trabalho na área pedagógica deixa muito a desejar.

Além destas matérias temos, 1 vez por semana, aulas de cerâmica, teatro, artesanato em madeira, patchwork, shodo (caligrafia com pincel), chadô (cerimônia de chá). Atualmente contamos com outras aulas como karatê, wadaiko, shogui e aikido.

No decorrer de um ano, desenvolvemos eventos onde podemos contar com a grande parceria dos pais que nos fornecem obento (lanche/almoço) caseiro.

 

Entrevistador: Qual a finalidade de todo este trabalho?

O Oshiman preza a parceria dos pais pois acreditamos que para o desenvolvimento completo e harmônico da criança se faz necessário nos colocarmos em 3 pontos (família, escola e sociedade como um todo) formando um triangulo para desenvolver o ser que estará ocupando o centro deste triângulo.

Quando solicitamos a doação de um prato caseiro para algum evento, é emocionante saber que mesmo pais que nunca cozinharam se esforçam para fazer o prato que o filho pediu. Esta solicitação já vem sendo feita há 26 anos pois, acreditamos que uma pessoa só será feliz se puder estar de bem com a família até a velhice. Muito melhor comemorar um aniversário ao lado da família toda do que receber um presente caríssimo, mas não ter ninguém que ama ao seu lado e estes valores precisam ser desenvolvidos dia após dia pois, não é algo que possa ser ensinado em sala de aula através de livros.

 

Entrevistador: Soubemos, também, que há uma peculiaridade na refeição dos alunos. Qual seria?

No início introduzimos pratos como sukiyaki para representar a culinária japonesa, mas como era feito para um número grande de pessoas, não conseguíamos produzir um sabor original. A preocupação de não conseguir transmitir os valores e sabores da verdadeira culinária japonesa nos fez buscar ajuda junto aos pais. Nasce aí um grupo de voluntários que passou a elaborar cardápios da culinária japonesa para os alunos. O início deste trabalho foi há 20 anos e hoje contamos com a participação da quarta geração de pais. O grupo é integrado por aproximadamente 12 pessoas, dentre elas muitas mães e 3 pais. Elaboram menu variado, até pratos típicos de Okinawa que são servidos em lindas cerâmicas doadas pela ceramista Hideko Honma.

Apesar do seu puxado dia de trabalho, estes pais comparecem a escola toda quarta feira para cozinhar. Não é um trabalho fácil, mas são motivados pelo sorriso de prazer de cada criança.

 

Entrevistador: No Japão há uma aula de Educação Moral no currículo, e no Colégio Oshiman?

Não temos uma aula específica de Educação moral, porém a cada problema em sala de aula ou fora dela, este é trabalhado imediatamente, através de muito diálogo e troca de experiências. Isto é possível pois, contamos com uma equipe professores que compartilham do mesmo ideal.

As regras escolares são elaboradas através de um trabalho com os alunos fazendo com que eles cheguem a um ponto importante dentro de suas ações. Assim, podemos cobrar as suas atitudes quando regras são quebradas. Acreditamos que desta forma desenvolvem o caráter e a convicção.

 

Entrevistador: Existe alguma situação em que as regras da escola são decididas em conjunto com os pais?

Não, isto não acontece. Quando há discordância em relação a estas regras, procuramos dialogar até que consigamos explicar o motivo que nos levou a criar a tal regra.

Vivemos uma época em que seguir regras está cada dia mais difícil, porém a vida é feita sob várias regras de convívio. Quando falamos de uniforme, não estamos nos referindo apenas à questão de usar uniforme corretamente, mas sim de fazer os alunos compreenderem que regras existem e é importante segui-las.

Neste momento, precisamos do apoio e da parceria dos pais, alguns pais nos dizem que no Oshiman não só os alunos se desenvolvem, mas os pais também.

 

Entrevistador: Na sua opinião, qual seria a magia do CHADÔ?

É uma relação entre almas sem o uso das palavras.

Por exemplo, ao recebermos o chá, a xicara vem com a parte mais bonita voltada para nós, indicando que o anfitrião gostaria que saboreássemos o chá contemplando a face mais bela da xícara, porém ao girarmos duas vezes no sentido horário, respondemos ao anfitrião que nos sentimos lisonjeados, mas, por não sermos dignos de tamanha atenção nos serviremos com o outro lado da xícara.

Sinceramente, acredito que essa completa compreensão não atinge aos alunos que estão na faixa etária de 6 a 14 anos, mesmo assim é importante estar sob influência destes valores desde pequeno.

Alguns alunos conseguem diferenciar o paladar da água de KYOTO da água do Brasil que é utilizada para preparar o chá, outros continuaram a praticar o CHADÔ mesmo adulto.

 

Entrevistador: A palavra chave que norteia o seu dia a dia?

Ser sincera, em primeiro lugar, comigo mesma.

Nós, seres humanos, somos fracos assim busco ser a mais honesta possível em relação aos meus atos, assim, acredito poder passar valores importantes aos nossos alunos.

 

– Muito obrigado pelo tempo dispensado, apesar de suas ocupações.

 

Outubro de 2019

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