- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Entrevista com Hideko Honma, professora de Cerâmica, Estética e História da Arte

Nesta décima quarta entrevista com personalidades no Brasil, apresentamos a professora de Cerâmica, Estética e História da Arte. Em 2008 por solicitação do Governo Japonês e através do então Embaixador Ken Shimanouchi, produziu 1.240 peças para o jantar de recepção da Sua Alteza Imperial do Japão, Príncipe Naruhito, na Embaixada do Japão em Brasília.

Perfil

Brasileira, filha de japoneses, nasceu em Lins, interior de São Paulo. Pai: Província de Kumamoto e Mãe: Província de Nagano
Família: Casada há mais de quarenta anos, 4 filhos, 1 neto
Hobbies: leitura, lifestyle, gastronomia japonesa.

Entrevistador: Poderia nos explicar sobre o seu trabalho?

Sou formada em Artes Plásticas (Faculdade de Belas Artes de São Paulo) e Pós Graduada em História da Arte (ECA –USP). Lecionei Estética e História da Arte na Faculdade Santa Marcelina, por mais de 10 anos até que comecei o meu trabalho com a cerâmica.

Graças ao incentivo de meu esposo, meu pai e da falecida “tia Sadako”, que foi a mediadora no Japão, fui direto para a cidade de Arita e consegui fazer o meu primeiro curso de cerâmica por três meses no Colégio Técnico de Cerâmica de Arita – Saga. Voltei por muitas vezes nesta mesma cidade e depois em outras também, e sempre para aperfeiçoar a minha técnica, realizar exposições e dar workshops. Mas sempre me lembro de como foi sofrido quando deixava os meus quatro filhos ainda pequenos.

 

Entrevistador: Depois desta primeira viagem, quando iniciou a sua carreira no Brasil?

Esta viagem foi uma introdução que impressionou e mudou a minha vida. No Brasil eu constatei que não se conheciam as ferramentas como a espátula de madeira feita a mão (hera ou gyubera). O torno (rokuro) no Brasil gira no sentido anti-horário, no Japão aprendi no sentido horário! A matéria prima para fazer o esmalte vidrado (uwagusuri) e as cinzas (hai) são compradas na cooperativa dos ceramistas da cidade e a porcelana de boa qualidade (jiki), não existe no Brasil. Teria então que começar do zero. Senti que seria um enorme desafio utilizar matéria prima brasileira com autenticidade. Iniciei minha pesquisa introdutória com cinzas da vegetação brasileira.

A primeira experiência com cinzas para vidrar e colorir minhas peças, foi com gramíneo de jardim, logo depois, bananeira e coqueiro. Há dois anos atrás utilizei a madeira da árvore do jatobá com fibras de bananeira e consegui um bom efeito de azul esverdeado, mas precisava melhorar. A última foi com podas de cafezal e tenho chegado na cor verde oliva e dourado.
Depois de alguns anos de pesquisa introdutória com cinzas do Brasil, fui convidada para expor esta pesquisa em Arita. Depois em Saga e Tokyo. E por último em 2016, na Comemoração para os 400 anos da descoberta da porcelana em Arita.

 

Fotos da Redação

 

Entrevistador: Qual a sua inspiração na confecção de suas cerâmicas?

Além do que a Natureza me oferece, mudando e alterando o estado das coisas e de todos os seres vivos, eu sempre me preocupo com forma e sensação.

Construo o meu objeto no torno. Porque nele facilmente encontramos um centro e tudo deve originalmente girar em torno deste eixo central.

Passada esta fase inicial levo a assimetria da natureza para dentro destes objetos. Então eles, no início são construídos tecnicamente perfeitos e depois são desconstruídos naturalmente. Como se o tempo … o meu tempo se impregnasse por ali. Estética Wabi Sabi!

 

Entrevistador: No futuro, que tipo de obra gostaria de fazer?

No futuro eu gostaria de continuar fazendo peças utilitária. Quero aperfeiçoar a minha técnica de fazer chawan com a técnica do Japão e continuar utilizando barro e vegetação do Brasil. E me empenharei para que esta peça possuidora de características do Japão, utilizada nacionalmente por todos os japoneses, continue cada vez mais sendo utilizada também cotidianamente por brasileiros. Este objeto produzido no Brasil deve levar a mensagem de sua importância cultural entre os dois países.

 

Entrevistador: Qual é a sua relação pessoal com a cerimônia do chá e seus encantos?

Eu tenho pouquíssima experiência com a cerimônia do chá.

Este é um dos Caminhos da Vida; como o Caminho da Cerâmica, o Caminho das Flores.

O Caminho para a cerimônia do chá é um dos mais complexos pela aparente e bela simplicidade. Sinto profundo respeito por esta simplicidade que encanta, mas para conseguir esta simplicidade você tem que ser verdadeiro, muito profundo, tem que ter grandiosidade. Tenho muito a caminhar.

 

Entrevistador: Qual é a sua filosofia de vida?

“A arte existe porque a vida não basta.” Ferreira Gullar

Minha filosofia de vida:
A técnica e depois a criação … para poder voar
Ilumino-me para então iluminar

 

 

 

 

12 de Dezembro de 2017

Fevereiro de 2018

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