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6. Kare – sequidão, aridez, desolação, morte…

Dentre outros significados, a palavra japonesa “kare 枯れ” exprime:

1. Plantas e árvores secando-se pelas folhas e galhos, ou o aspecto desolador que representa uma paisagem ou situação de sequidão ou aridez. Exemplos: “uragae 末枯れ” (o secar das folhas e galhos das plantas pelo frio); “natsugare 夏枯れ” – “fuyugare 冬枯れ” (morto, enfraquecido, ritmo ou produção baixa por causa do verão ou inverno); “shimogare 霜枯れ” (o mesmo que “fuyugare”, referindo-se a temporada baixa por causa do frio ou inverno), etc.

2. Faltar, consumar, desvanecer, acabar, definhar, secar. Exemplos: “shinagare 品枯れ” (fora de estoque); “shikingare 資金枯れ” (escassez ou corte de fundo), entre muitos.

O seguinte poema “Canção de Outono” é do famoso poeta francês Paul-Marie Verlaine (1844 – 1896). Foi traduzido ao idioma japonês por Bin Ueda 上田敏, na sua obra Kaichôon 海潮音 (O som da maré). [Coleção de traduções de poetas ocidentais, do próprio Ueda]. Apresentamos, nesta versão em português do artigo, a tradução do poeta brasileiro Alphonsus de Guimaraens:

CANÇÃO DO OUTONO

Os soluços graves
Dos violinos suaves
     Do outono
Ferem a minh’alma
Num langor de calma
     E sono.

     (…)

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
     Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
     Batido…

Para os ocidentais, folhas mortas são apenas símbolo de melancolia. Por outro lado, para os japoneses, “kare” não significa somente desolação, como o que se pode sentir do fim do verão até que venha a próxima primavera. Palavras que descrevem determinadas estações dentro do mundo dos poemas haiku, como por exemplo “karesusuki 枯れ薄” (capim-dos-pampas), “karekusa 枯草” (capim seco), “kareki 枯木” (árvore seca), “karegiku 枯菊” (crisântemos secos) ou “kareno 枯野” (campos secos ou desolados), demonstram como este termo é preferido e aceito, fazendo deste conceito parte do autêntico espírito japonês.

旅に病んで夢は枯れ野をかけ廻る
tabi ni yande yume wa kareno wo kakemeguru

Doente viajo
O meu sonho percorre
Os campos ressequidos
                    Matsuo Bashō

Na Europa ocidental, as pessoas se protegiam do inverno desolador em casas com paredes fortalecidas de pedra. Em contrapartida, no Japão as casas construídas em madeira e papel não conseguiam isolar o intenso frio. Casebres feitos com galhos secos e feno, por si sós, formavam parte da paisagem dos campos desolados. Talvez, por isso, de forma espontânea, o povo japonês se acostumou a tal percepção e aceitou o “kare” a ponto de sentir-se íntimo dele.

Uma representação extrema deste conceito é o estilo de jardim japonês chamado “karesansui 枯山水” [(literalmente “sem água ou monte”)]. O jardim do Templo Ryôanji 竜安寺, de Kyoto, foi construído apenas de pedras e areia, e ali inexiste árvores. Rios e lagoas que são comuns em jardins japoneses foram banidos, e então foi especialmente modelado um mundo sem a representação do elemento água. Os turistas japoneses que contemplam esta paisagem seca, sentem genuinamente a sua beleza.

Coisa interessante é observar a existência de vários nomes geográficos com o termo “kare”: Karekinada, Kareki, Karekitouge, Karekibashi, Karekicho, Karebuchi, entre outros.

A partir destes nomes pode-se imaginar estes lugares como paisagens sem muitas cores, mas de uma simplicidade refinada. Com certeza existirá harmonia e afinidade ao conceito “kare”, nestes locais.

O cantor Keisuke Yamauchi gravou uma música enka chamada “Fuyugare no viola”, do compositor Goro Matsui. É evidente, nesta canção, o profundo sentimento que o conceito “kare” produz nas pessoas que a escutam, através de sua letra.

 

Observação: Este artigo é extraído de parte do Yume Project (Projeto Sonho) da empresa Yume no Sekkeisha da Editora Kawade Shobo Shinsha. O contexto do inverno descrito neste artigo é do inverno japonês.

Dezembro de 2019

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