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12. Mi ni shimu – Um modo profundo de sentir…

O título do presente artigo talvez não se escute frequentemente, mas “mi ni shimu 身に入む” (tocar no coração, deixar-se tomar por um sentir profundo…) é um kigo, termo sazonal em poesia, uma expressão que se utiliza em descrições de vivências outonais. Expressa a sensação, como que do frio entranhando-se na pele, do vento outonal que começa a esfriar, ou o sentir melancólico e triste das pessoas em tais circunstâncias. Em japonês, pode-se escrever a mesma leitura da palavra “shimu” com diferentes caracteres: 染む、沁む、浸む、滲む. Tal expressão pode apresentar-se em diferentes situações, como a seguir:

1. “染みる。寒さが身にしむ” (shimiru; samusa ga minishimu): permear, infiltrar. Exemplo: o frio que penetra no corpo.
2. “色などを染める” (iro nado o someru): tingir.
3. “深く心を寄せる” (fukaku kokoro o yoseru): deixar-se atrair profundamente, sentir muito interesse por.

 

Na sequência, citaremos vários exemplos de poemas, a começar pelo estilo “waka”:

ゆうされば野辺の秋風身にしみて うずら鳴くなり深草の里
                 俊成 『千載集』より
Yū sareba / nobe no akikaze / mi ni shimite / uzura naku nari / fukakusa no sato.
                                     Fujiwara no Shunzei (Toshinari), “Senzai Waka Shû”.
Ao entardecer / O vento outonal nos campos / Traz frio ao meu coração / E choram lamentos as codornizes / No fundo do mato da vila de Fukakusa.

 

O poeta Fujiwara no Shunzei (Toshinari), fins da Era Heian (794-1185), consolidou, através do referido poema, a fixação da expressão. No caso de Toshinari, ele expressa o sentir no contexto de sua própria tristeza, camuflada nas várzeas onde as codornizes choram tristes em meio ao vento frio do outono. Apresenta, claramente, uma característica do gênero na Era Heian, o sentimentalismo, cujo traço será herdado mais tarde pelos poetas da Era Edo.

秋吹くはいかなる色の風なれば 身にしむばかりあわれなるらん
                         和泉式部
Aki fuku wa / ika naru iro no / kaze nareba / mi ni shimu bakari / awarenaruran
                         Izumi Shikibu
De que cores são / Esses ventos que sopram / No outono / Com tamanha comoção / no mais profundo de mim mesmo?

 

何ごとによらず心は貫くと 云へどわれにも秋は身に沁む
                        晶子
Nanigoto ni yorazu / kokoro wa tsuranuku to / iedo warenimo / Aki wa mi ni shimu
                        Akiko
Mantenho-me em tudo firme, mas meu coração desfaz-se à pungência do outono.

 

No mundo da poesia “haiku”, vemos também muitos exemplos desta expressão.

Matsuo Bashô (1644 –1694), em suas obras 『野ざらし紀行』 Nozarashi Kikô (1685), Um relato de viagem, e 『奥の細道』 Oku-no-hosomichi, Sendas de Oku (1685), emprega este termo algumas vezes, como veremos:

―野ざらしを心に風のしむ身かな        芭蕉
Nozarashi o/ kokoro ni/ kaze no shimu mi kana   Bashô
No pensamento / Um esqueleto abandonado / Arrepios ao vento

―身にしみて大根からし秋の風      芭蕉
mini shimite/daikon-karashi/ aki no kaze  Bashô
Penetrando no meu corpo / O amargor do nabo / Vento de outono

 

Por último, mostraremos mais três exemplos citados no dicionário de termos sazonais Saijiki〈歳時記〉:

―身にしむや亡妻(なきつま)の櫛を閨(ねや)に踏む   蕪村
Mi ni shimu ya / nakitsuma no kushi wo / neya ni fumu     Buson
Frio na alcova / Ao pisar teu pente / Falecida esposa

―身に入むや齢十九とある墓標      朝妻力(あさつまりき)
Mi ni shimuya / yowai jûku to aru / bohyô  Asatsumariki
Dezenove anos / Súbito arrepio / Ao ver a lápide

―身に入むや芭蕉も訪ひし立石寺         石井邦子
Mi ni shimu ya / Bashô mo otozurehishi / Risshakuji  Ishii Kuniko
Emoção profunda / Na visita ao templo Risshakuji / Bashô esteve aqui

 

Risshakuji é conhecido também por Yamadera 山寺 e está situado na cidade de Yamagata, província de Yamagata. Dizem que Bashô, ao fazer a peregrinação poética de “Sendas de Oku”, passou ali no seu caminho de volta. No dia 9 de julho de 1989 foi inaugurado o “Yamadera Basho Memorial Museum”, para celebrar os 300 anos da passagem de Bashô por lá.
Para chegar ao templo dos fundos, existe uma escadaria de 1.015 degraus. Passo a passo é como se se pagasse um pecado e fosse possível expulsar um mal da vida. Sente-se, a cada degrau, a alma mais transparente e iluminada, no meio da bela e silenciosa paisagem. Certamente, tal experiência deu origem ao famoso haiku de Bashô, escrito no templo.

閑かさや 岩にしみいる 蝉の声      芭蕉
Shizukasa ya / iwa ni shimi iru / semi no koe  Bashô
Quietude / O canto das cigarras / Atravessa os rochedos

 

Yamadera    Oku-no-hosomichi

Junho de 2021

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