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7. Ume ni uguisu – Rouxinol na ameixeira florida

“Rouxinol na ameixeira” é uma associação ideal, uma consonância equilibrada entre esses dois componentes. É um tema tradicional na poesia e ilustração japonesa, e tem sua origem nos poemas clássicos da China.

Um desses exemplos é o jogo japonês de cartas (hanafuda 花札), chamado também de hana-karuta (花かるた), ou jogo de cartas com motivos florais. Nele pode-se constatar bem a demonstração de harmonia entre dois elementos. Trata-se de um jogo de mesa trazido pelos jesuítas portugueses, no século XVI, daí provém a origem da palavra “karuta”. A versão que se utiliza, atualmente, com doze padrões de desenhos, é aquela de meados do Período Edo (1603-1868). Dentre os temas apresentados, aparecem combinações que sempre se juntam por afinidade, como nos seguintes exemplos: rouxinol na ameixeira, grou no pinheiro, veado na paisagem outonal, borboleta na peônia, andorinha no salgueiro, tigre no bambuzal, lua entre as gramas-do-pampa, entre outros.

No tema de hoje, o rouxinol com o seu lindo canto e a ameixeira com as suas flores trazem, ambos, o anúncio da primavera. Ao juntar estes dois elementos, a combinação que se obtém é graciosa e elegante, exemplo perfeito de comunhão

 

Versão com o mejiro (メジロ), o passarinho japonês do “olho branco”:
O canto do rouxinol é diferente do canto do mejiro, a sua cor é marrom e alimenta-se de insetos e sapos. Por outro lado, o mejiro tem a cor verde, é bem menor que o pardal (suzume スズメ) e, se come insetos, alimenta-se também do néctar das flores, como da ameixeira. Logo, existe a versão que questiona a combinação rouxinol-ameixeira, e apresenta a associação mejiro-ameixeira no lugar.

 

Nas canções curtas de amor “edo-hauta 江戸端唄” (populares no final do período Edo), há aquelas chamadas “harusame 春雨” (chuva de primavera), “ume wa saitaka 梅はさいたか” (já floresceu a ameixeira?), que são cantadas até hoje. 

A obra clássica japonesa “Kokin wakashû 古今和歌集”, traz o seguinte poema, de autor desconhecido:

「梅の花 見にこそ来つれ うぐいすの ひとくひとくと 厭ひしもをみる」

Ume no hana mi ni koso kitsure uguisu no hitoku hitoku to iya hishi mo o miru 

Pode-se interpretar o seu conteúdo cheio de humor, assim:

Venho apreciar as flores da ameixeira,
mas o rouxinol canta ´hitoku hitoku´ (aí vem gente! aí vem gente!),
desprezando-me”. 

 

Ôshukubai【鶯宿梅】 (lit. rouxinol/ morada/ ameixeira)
É o nome de uma espécie de ameixeira, que tem um perfume acentuado, flores brancas, e que às vezes também floresce em cores misturadas, rosa e branca. O nome se formou a partir de uma famosa alusão histórica do século X, em que ao secar-se a ameixeira de sua residência, o Imperador Murakami mandou procurar uma árvore substituta da mesma espécie. Encontram uma na propriedade da filha de Kino Tsurayuki, Kino Naishi, que foi transplantada para o jardim imperial. Ao contemplá-la, o imperador encontra um lamento em forma de poema waka, escrito por Kino Naishi, pendurado em um dos galhos:

勅なれば いともかしこし うぐいすの 宿はと問わば いかに答へむ

Choku nareba itomo kashikoshi uguisu no yado wa to towaba ikani kotae mu 
Se é o desejo de Vossa Majestade Imperial,
acato, sem embargo.
Mas o que responderei ao rouxinol
que vem todos os anos aninhar-se nestes galhos,
quando ele chegar e não encontrar sua morada?” 

O Imperador Murakami, intelectual, amante de literatura e alaúde, entendeu a mensagem e mandou devolver a ameixeira. Alusão a este fato se faz em obras tais como “Shûishû 拾遺集” e “Ôkagami 大鏡”.

Março de 2020

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