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Materiais da Natureza – Washi I

Na série “Materiais da Natureza” apresentaremos em duas partes o tema papel japonês (washi). A primeira parte será sobre sua característica e história; e na segunda vez, sobre seu uso: divisória móvel (tsuitate ついたて), janela corrediça (shôji 障子), encadernação de livro japonês (wahon 和本), rolo de pintura ou caligrafia para pendurar (kakejiku 掛軸), entre outros.

PAPEL JAPONÊS E PAPEL OCIDENTAL (WASHI 和紙 e YÔSHI 洋紙)
Washi ou wagami é o papel do antigo Japão. Em contraste com o papel feito no Japão, temos yôshi (papel ocidental) vindo da Europa e dos Estados Unidos. Washi e Yôshi são palavras que surgiram depois do período Meiji, que até então era denominado de “papel – kami 紙“.

CARACTERÍSTICAS DO WASHI
Por ser um papel feito à mão, é muito forte, tem boa capacidade de absorção de água; sem dúvida, é usado na caligrafia e pintura e também no artesanato popular. 

MATÉRIA-PRIMA DO WASHI
Como matéria-prima têm as fibras da casca da árvore ganpi (雁皮 Diplomorpha sikokiana), do arbusto mitsumata (edgeworthia papyrifera), kôzo (Broussonetia kazinoki – espécie de amoreira), suas características são únicas em cores e textura, resistente e difíceis de deteriorar. Em particular, o washi que usa ganpi é denominado de ganpishi 雁皮紙 (papel ganpi), que depois passou a ser chamado de “torinokoshi 鳥の子紙” (papel torinoko), produto de alta qualidade. O mitsumata é adequado para papel-moeda, títulos e valores. O kôzo é particularmente forte e é usado como papel para janela corrediça (shôjishi 障子紙), guarda-chuva (kasagami 傘紙), em cerimonial (hôshokami 奉書紙), entre outros.
Após meados do período Meiji, foi introduzida a técnica de fabricação de papel cuja produção é por máquinas e a matéria-prima é, principalmente, de polpa de madeira, cânhamo de Manila, papel usado, etc.

HISTÓRIA DO WASHI
610  Iniciou-se no Japão o método de fabricação de papel pelo monge budista Damjing (ou Donchô 曇徴 em japonês).
702  Data escrita no registro familiar de Mino, Chikuzen e Buzen arquivado no repositório imperial Shôsô-in, indica ser o papel mais antigo do Japão.
Em meados do período Heian, escreve-se as obras “Makura no sôshi 枕草子” (O Livro do Travesseiro) e “Genji monogatari 源氏物語” (O conto de Genji).
No período Edo, o papel é fornecido em grande quantidade e a um preço baixo.
1874     A empresa Yûkôsha (有恒社) inicia a fabricação do papel ocidental (yôshi).
2014     O papel washi é registrado como um patrimônio cultural intangível da UNESCO.

VARIEDADES DE WASHI
Hon-minoshi (本美濃紙) – papel original de Mino, província de Gifu.
Sekishû-banshi (石州半紙) – papel para escrita japonesa de tamanho padrão feito em Iwami, província de Shimane.
Hosokawa-gami (細川紙) – papel da província de Saitama.
Echizen washi (越前和紙) – papel feito na antiga província de Echizen.
Tosa tengujô-shi (土佐典具帖紙)- papel de textura lisa para restauro, conservação de documentos e livros, da província de Kochi.
Echizen hôsho (越前奉書) – usado para impressão de xilogravura, cerimônias tradicionais e certificados, feito em Echizen, atual província de Fukui.
Edo karakami (江戸からかみ) – papéis usados em Edo.

HISTÓRIA DO PAPEL
PERÍODO SEM PAPEL
Se nos perguntarmos: “Como as pessoas conservaram e transmitiram a escrita?” Pois bem, eles utilizaram folhas de plantas, casca de árvores, pedras e pele de animal.

  • Papiro
    Foi usado no antigo Egito, é uma planta de caule longo que era dividido em lâminas finas, estendidas em camadas no sentido horizontal e logo outra na vertical, comprimidas, desidratadas e secas.
  • Pele de carneiro
    No oeste da Ásia e Europa usaram a pele de carneiro, entre outras, por ser fácil retirar os pelos. Após mergulhar a pele em um líquido raspavam os pelos, estendiam em uma armação de madeira para secar, e posteriormente sua superfície era polida.
  • Tabuleta de barro
    Usado principalmente na Mesopotâmia, eram tabuletas feitas de argila macia e úmida, e depois de inscrever as letras em forma de cunha com o auxílio de folhas de junco, eram queimadas e assim conservavam seus registros.
  • Tabuinhas de madeira e de bambu para inscrições
    Na China antiga usaram-se tabuinhas de madeira ou de bambu como material de transcrição. A maioria era agrupada com cordas. Nas ruínas de Heijôkyô (平城京, antiga capital do Japão), em Nara, foram escavadas peças de madeira semelhantes a essas tabuinhas chinesas.
  • Casca da árvore Amate
    Amate é o nome em espanhol do papel fabricado na Mesoamérica (civilizações asteca, maia e olmeca). Diz-se que tem um efeito mágico.
    Este papel amate usava, principalmente, seis espécies de árvores, incluindo a árvore da figueira. A casca da árvore era batida com uma pedra e esticada para fazer a “folha de papel”. Foi protegido pelo povo nativo Otomi.
  • Tecido de seda
    Na China e no Japão usaram o tecido de seda.
  • Folha de palmeiras
    Na Índia utilizaram folhas de palmeiras processadas para sutras.

 

O PAPEL MAIS ANTIGO DO MUNDO FOI ACHADO NA CHINA
Em 1986 foi descoberto um papel de 150 anos a.C. aproximadamente.
O papel foi criado no ano de 107 d.C. usando casca de madeira e pano de cânhamo por Cai Luan (ou Tsai Luan) da dinastia Han, na China; e há relatos de que entregou esse papel ao imperador japonês.

MATERIAIS QUE CONSTITUEM O PAPEL
Cânhamo (asa), papel de amora (kaji no kiBroussonetia Papyrifera), espécie de amoreira (kôzo-Broussonetia kazinoki), plantas dos gêneros Diplomorpha sikokiana (ganpi) e euonymus sieboldianuses (mayumi).
Planta do gênero Edgeworthia papyrifera (mitsumata), bambu (take), palha (wara), linho (ama), algodão (momen), cana-de-açúcar (satôkibi), cânhamo de Manila (Manila asa), cânhamo-brasileiro (kenafuHibiscus cannabinus).
Banana, palmeira de dendê (abura yashiElaeis guineensis), metal (kinzoku), polpa de madeira, (mokuzai parupu), lasca de madeira (mokuzai chippu) e papel velho (koshi).
Conhecer o papel japonês washi é conhecer o Japão; especialmente o papel japonês feito à mão tem a sensibilidade sutil dos japoneses que procuram emoção no papel, e nesse fica o espírito de criação dos objetos japoneses.

Novembro de 2017

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