- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

O que aprendi na Urasenke do Japão

Sumiko Hirose (Ikeda Sôjun)

Meus cumprimentos a todos da Urasenke!
O isolamento social devido ao coronavírus nos força a ficar em casa e, inevitavelmente, nos leva a pensar sobre várias coisas. São nesses momentos que a “Caixa de Perguntas sobre a Cerimônia do Chá”, enviada pela professora Bertha, tem me servido de alento e oportunidade de estudo. A pedido da professora Sôen, escreverei as memórias que considero valiosas sobre os estudos que vivenciei na Urasenke do Japão, na sala Konnichian, durante o ano em que lá estive.

Meus pais, por serem japoneses, sentiam saudades da tradição e dos costumes. E, assim, desde criança aprendi dança tradicional japonesa, o famoso estilo Hanayagi, e Ikebana estilo Mishoryu, recebendo os nomes artísticos Kinsumiko e Junhou respectivamente. Minha mãe foi a fundadora da Associação de Ikebana do Brasil e meu pai o fundador da Associação de Kabuki do Brasil. Por várias vezes encenei o personagem Yoshitsune, da peça teatral Kanjinchô. Ainda me lembro da maioria de suas falas e da música clássica com canto (nagauta). Meu marido é o romancista Masao Daigo.

Quando cursava o ginásio, hoje ensino fundamental, recebemos o professor Nagai, que pertence ao quadro de professores mestres da Urasenke do Japão, para nos ensinar a arte da cerimônia do chá. Durante um ano, todas as semanas, 20 jovens se empenharam no aprendizado e treino. Quando iniciei a faculdade, integrei a terceira turma de estudantes estrangeiros por recomendação do mestre Nagai e fui estudar junto ao Iemoto da Urasenke, no Japão.

As aulas eram o dia inteiro. Todas as manhãs, começava por vestir o kimono sozinha; a preparação das salas era feita em conjunto, em seguida ficávamos de seiza (posição ereta sentada sobre os calcanhares) por 15 minutos concentrados nos 100 poemas didáticos de Rikyû, sob a orientação da mestra Hamamoto. Na parte da manhã tínhamos aula prática; à tarde palestras, história do chá, chabana, explicações sobre os utensílios, encontros para aprender sobre as caldeiras, além de visitas aos templos. Lembro-me que não consegui concluir uma vez sequer, a colocação das cinzas no braseiro, o corte do carvão no verão; na caligrafia a pincel não conseguia escrever os ideogramas (kanji), por isso só desenhava círculos. Às vezes, no sábado ou domingo fazíamos a cerimônia de chá formal (chaji) dos alunos e, em uma dessas ocasiões, usei os utensílios de chá de jacarandá do Brasil.

Aprendi com o Iemoto Mugensai o temaegyô no gyô daisu”. O dia em que fazia o temae na presença do Iemoto Hôunsai, ele me disse para não esquecer o shujinkô (o eu original, minha verdadeira natureza). Momentos alegres e divertidos passei com as esposas Sen Kayoko e Sen Tomiko, juntamente com os colegas de estudo na visita à Ôkôchi sansô (antiga casa e jardim do ator Denjirô Ôkôchi em Arashiyama, Kyoto). Apreciamos a lua cheia de um barco bebendo chá. Na festa Gion matsuri, a ponta brilhante da vara comprida dos carros alegóricos me chamou muito a atenção; na passagem de ano a queima “okerabi” (rizoma herbal que ao ser queimado exala um aroma, utilizado para afastar o mal); o encontro de chá (chakai) no templo Daitokuji.

Também me lembro do dia em que derrubei a caldeira do dairo (fogareiro grande usado na época mais fria do inverno) ao me levantar com as pernas dormentes, e deixei o professor Abe em apuros. A primeira vez em que vi a neve, fiquei tão feliz que fui para fora de kimono vestida do jeito que estava e escorreguei, levando o professor Tsuchimoto a dar gargalhadas. Ele ensinava: “Segure as coisas pesadas como se fossem leves, o mizusashi está muito alto”. Fui com os professores jovens ao boliche, escondida da responsável do alojamento, mas fui descoberta e levei uma bronca da mestra Hamamoto. Hoje sinto saudades…!

Na época tinha apenas 20 anos e não sabia quão grande era o tesouro que havia adquirido. Não sei fazer o temae com perfeição, mas quero cultivar todos os dias o “sentimento do chá”.

 

Sumiko Ikeda

Kyojô Hikitsugi

Mestra Hamamoto

 

Carta de Sen Kayoko

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