- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Shôgo Chaji de 11 de outubro

No dia 11 de outubro aconteceu o Chaji do meio-dia da anfitriã Hara, Kaori. Desta vez, o chaji foi feito no ro. O cardápio da refeição kaiseki também mudou e o tema na sala de espera (machiai) dava a atmosfera de outono, com uma pintura da colheita de cacau (no tecido tingido na técnica rôketsu-zome), castanhas e folhas caídas e um fruto de cacau. O convidado principal Klécio, veio especialmente de Londrina para participar. A anfitriã, a assistente, e os convidados acompanhantes eram em sua maioria iniciantes, mas se esforçaram bastante.

 

IMPRESSÕES DO CONVIDADO PRINCIPAL – SHÔKYAKU Klécio Sôwa O. dos Santos

Quando participei da reunião onde Sôen sensei comunicou a decisão de realizar alguns Chaji, visando o estudo dos mesmos de forma prática ao longo do ano de 2021, e se alguém de nós desejava participar deles, eu fiquei muito empolgado. Nunca tinha participado de um Chaji, mesmo frequentando as aulas há mais de 20 anos. Só via esses encontros em vídeos de Internet e, num linguajar bem brasileiro, “olhava com os olhos e lambia a testa”. De pronto, disse sim ao convite e recebi a honra do papel de teishu. Quando a reunião onde fui o anfitrião se deu, foi incrível, era a realização de um sonho, e o gostinho de ‘quero mais’ ficou em meu coração.

Quis participar de outros Chaji, em papeis diferentes, mas como temos muitos alunos e grande número deles também se interessou por essas aulas, para dar oportunidade a outros eu tive que me resignar.

Algum tempo depois vi nos e-mails da escola os planos dos próximos Chaji a serem realizados, nos meses subsequentes. Por um erro meu de leitura da planilha, achei que num dos encontros havia uma vaga de terceiro convidado (san-kyaku) aberto. Entrei em euforia e imediatamente liguei para os organizadores me candidatando à vaga. Que balde de água fria ao descobrir que eu estava lendo a planilha de forma errada, e que não havia nenhuma lacuna em aberto… Enfim, esse episódio acabou me favorecendo algum tempo depois, pois por um inesperado problema de saúde, um de nossos colegas teve que declinar seu convite e uma vaga se abriu. Nossas professoras, sabendo do meu desejo de novamente participar, convidaram-me para ocupar a vaga inesperadamente aberta, e eu tive a oportunidade de mais uma vez entrar num Chaji, dessa vez como convidado principal (shôkyaku).

Chovia no dia de nosso encontro, o que foi providencial, pois o temae seria com ro e outubro já costuma estar um pouco quente aqui no Brasil. Com a chuva fresca caindo, a sala estava aconchegante e o barulho da chuva lá fora embalava nosso deleite.

Logo na chegada fomos recebidos na sala de espera (machiai) decorado com uma pintura no tecido tingido na técnica batik (rôketsu-zome) mostrando uma cena de colheita de cacau, e no chão do tokonoma via-se folhas secas e um cacau verdadeiro, de tal maneira que ao fazer ojigi em frente à pintura, tinha-se a sensação de estar entrando na cena retratada, delicada perspicácia artística de nossa anfitriã. Já logo percebi que nossa anfitriã havia se dedicado de alma ao encontro.

Seguimos para o banco de espera (koshikakemachiai), onde nossa anfitriã veio nos cumprimentar, e de lá seguimos para a sala de oito tatames, onde nosso encontro foi realizado. Ao entrar na sala, um lindo kakejiku exposto no tokonoma nos dava boas vindas e no ro estava uma caldeira do estilo shin’nari da categoria ko-Ashiya (Ashiya antigo), com figuras de cavalos em alto relevo, lindos demais. A lareira estava ornada com uma moldura de madeira (robuchi) onde se via folhas de paulownia (kiri) e crisântemos desenhados. A cerimônia de carvão que se seguiu foi fluída e nela pude apreciar um cabaça com seu interior laqueado em urushi preto, usada para pôr os carvões, e um lindo porta-incenso (kôgô) que se destacava em seu interior. Terminada a primeira cerimônia do carvão (shozumi), fomos convidados a nos sentar em ryûrei, para apreciarmos o kaiseki de forma mais confortável. A comida foi servida e de início degustamos arroz, misoshiru e um maravilhoso sashimi.

Aqui cabe um comentário jocoso: na reunião anterior em que fui teishu, durante o intercambio da taça de saquê (chidori-no-sakazuki), por não ser acostumado com bebidas alcoólicas, fiquei levemente embriagado, o que causou preocupação a Sôichi sensei. Na ocasião fiquei um pouco desiquilibrado, por alguns momentos, mas o riso causado por esse fato em um momento onde todos estavam tão solenes, quebrou a tensão e proporcionou-me apreciar o evento muito mais relaxado. Dessa vez, quando o saquê foi servido, logo após entornar o primeiro sakazuki, o sensei já perguntou se nos próximos eu desejava beber água ao invés de saquê. Nós dois rimos, mas meus companheiros de sala não puderam acompanhar a piada. Enfim, o clima era leve e descontraído, e a comida maravilhosa.

Ao final da primeira parte (shoza) fomos novamente ao banco de espera e ao iniciar a última parte (goza), entrando na sala já fiquei maravilhado com a linda flor de tom azul, kikyô, magistralmente disposta em um vaso de bambu em forma de flauta shakuhachi. Pura beleza wabi-sabi. No lugar onde o anfitrião senta para preparar o chá havia um mizusashi de cerâmica Bizen magnífico, e logo me veio à cabeça a clássica combinação Inbe 伊部 / Oribe 織部 / Fukube 福部. Já tinha entrado na sala durante o shozumi, a cabaça (ou Fukube) e agora vejo Inbe (ou Bizen); faltava o Oribe e minha curiosidade começou. Quem seria o representante que completaria o trio?

Logo o koicha teve início, e mais uma surpresa: foi realizado kakufukudate (método de preparar e servir uma tigela de chá forte por pessoa). Tive a oportunidade de ver essa versão de koicha tão em voga agora em tempos de pandemia.

Ainda no koicha tive o gosto de ver um chaire com 150 anos, encontrado por nossa anfitriã num antiquário dos EUA, e depois da segunda cerimônia do carvão (gozumi) finalmente vi o terceiro componente da tríade que eu estava esperando: um lindo chawan Oribe!

Percebia nesses detalhes o quanto nossa anfitriã devia ter se dedicado de coração ao nosso encontro, mostrando nessas sutilezas muito planejamento e carinho. Tal delicadeza era vista até na escolha do chashaku usado no usucha… Lembram-se que só pude participar desse encontro porque um colega teve um imprevisto de saúde? Pois nossa anfitriã o representou na sala, usando um chashaku feito por ele e presenteado à mesma em outra ocasião. Como disse e torno a repetir, uma anfitriã com muito refinamento. Quatro horas se passaram sem que eu visse a areia do tempo escorrer, e nosso encontro então acabou.

Eu estava em júbilo. Agradeço mais uma vez a todos que me possibilitaram essa experiência, e a lista é extensa: os colegas de sala, nossa anfitriã e sua hantô, Sôichi sensei e seu suporte didático, sempre discreto o suficiente para não parecer que estávamos em aula, mas imprescindível para o fluir do evento, Sôen sensei, Bertha sensei, Sôkei sensei, enfim, todos que de forma direta ou indireta me possibilitaram esse momento, esse encontro. Arigatô!

IMPRESSÕES DO SEGUNDO CONVIDADO– JIKYAKU – Tamaki, Koshi

Agradeço profundamente a oportunidade de participação neste precioso Chaji.

Jamais havia tido a chance de participar de uma Cerimônia do Chá formal, sendo esta a minha primeira experiência. Tudo o que vi e provei foi novidade, e o que aprendi foi uma profusão de experiência.

No momento da primeira saudação da anfitriã, foi-nos explicado sobre o kakejiku da ocasião pendurado na sala, cujas palavras eram 「日々是好日」(nichi nichi kore kôjitsu), ou seja, que todos os dias sejam um bom dia, no meu simples entender.

Entretanto, o sentido dessa expressão era muito mais profundo que a minha percepção superficial. Este dia, em que tive a chance de encontrar-me com todas essas pessoas, era em si mesmo, dentro de nossas vidas, um momento tão precioso que sequer perderia um só segundo dele.

No kaiseki, cada prato foi maravilhosamente apresentado e consegui deliciar-me de cada um deles até o fim. Na ocasião em que koicha foi servido, foi possível apreciar com total interesse cada peça utilizada na cerimônia. Fiquei realmente sensibilizado com o cuidado de nossa anfitriã em cada detalhe, que se empenhou com muita hospitalidade e esmero.

Outro momento em que fiquei muito impressionado foi na Cerimônia do Carvão (sumidemae). Ao presenciar de perto o carvão durante o otemae, senti-me tranquilizado pelo aroma doce do incenso em meio ao ambiente silencioso da sala de chá. Ao mesmo tempo, escutava e contemplava as chispas ao avivar-se a brasa e a água fervendo no kama. Todos esses elementos fizeram-me sentir uma emoção e um privilégio indescritíveis.

Antes de terminar, gostaria de dizer que me sinto muito agradecido a Sôichi sensei pelas explicações do sentido do Chaji, a forma de servir-nos do kaiseki, entre outros esclarecimentos durante o evento. Agradeço de coração também aos demais professores, por oferecer-nos uma oportunidade como essa.

Espero poder retribuir em algo e aplicar nas futuras práticas de chá o que aprendi e senti, a partir dessa experiência de Chaji, e assim dedicar-me cada vez mais ao aperfeiçoamento deste caminho.

IMPRESSÕES DA ÚLTIMA CONVIDADA – TSUME – Takako Miyamichi Resende

Naquele dia, saí de casa preocupada com o tempo, pensando que seria bom se não chovesse. Aceitei ser a última convidada (tsume), apesar de não ter noção do que tinha que fazer, e fiquei apreensiva, mas, por outro lado, despreocupada; já que não sabia nada considerei, em primeiro lugar, como algo prazeroso. Acredito que muitas vezes tenha causado transtorno aos mestres e a todos. Por favor, perdoem-me. Graças à orientação serena e à paciência de Sôichi sensei, mesmo suando frio consegui desempenhar o papel de última convidada.

A refeição kaiseki, deliciosa! O doce principal úmido (omogashi), confeccionado pela própria anfitriã Hara-san, tinha uma bela aparência, e, aquela única flor de kikyô (campânula chinesa) no tokonoma fez-me experimentar uma hospitalidade digna e gentil. Senti que isso também foi devido à auxiliar Shinagawa-san. O pote de cerâmica para chá forte (chaire), com a bolsinha de tecido (shifuku), e o recipiente para chá verde fraco em pó (natsume), foram adquiridos no exterior. Esqueci o nome do ceramista, mas o jarro para água fresca (mizusashi) e a tigela (chawan) foram feitos no Brasil. Quaisquer dos utensílios, a colher para chá (chashaku), feita de jacarandá, entre outros, demonstram bom gosto e a grandeza eterna da terra.

Expresso minha gratidão aos mestres e a todos pelo momento maravilhoso que passamos juntos.

IMPRESSÕES DA ASSISTENTE – HANTÔ – Shinagawa, Atsuko

Estive em viagem de férias prolongadas no Japão, quando recebi o convite para participar do Chaji. E ouvi pela primeira vez as palavras Hantô e Chaji.

Mediante a orientação da professora Sôen, consegui felizmente comprar no Japão livros didáticos como “Shôgo Chaji 正午茶事” (Chaji do Meio-Dia) e “Mizuya Shigoto 水屋仕事” (O trabalho no mizuya), e trazê-los comigo quando voltei ao Brasil. Foi possível, então, com antecedência entender o fluxo da Cerimônia do Chá formal e suas detalhadas regras.

No entanto, é muito importante ter a experiência na prática habitual, mais do que ler um livro didático e entendê-lo só com a cabeça.

As palavras “a assistente controla o fluxo da Cerimônia do Chá”, ditas por minha professora, pressionaram-me bastante, mas de modo a ser algo muito apropriado para mim.

Senti que o meu papel principal era concentrar-me firmemente em dar o melhor suporte à anfitriã Sra. Hara, poder fornecer uma boa hospitalidade aos convidados, para que eles por sua vez pudessem curtir um agradável momento, num confortável ambiente.

Sob a orientação da professora Sôen e do professor Sôichi, aprendemos novamente a cultura japonesa, como a profundidade do Chanoyu, que é diferente do treino habitual, dos conteúdos e etiqueta da culinária kaiseki, mais ligados ao nosso cotidiano.

Senti também que o Chaji tinha começado a partir de seus preparativos. Enquanto escolhia cada utensílio para usar neste evento de chá, o “kakejiku” para colocar no tokonoma da sala de chá, eu me sentia como se apreciasse objetos de arte numa exposição ou num museu de arte.

A escolha final dos utensílios de chá resultou numa espécie de combinação de obras de arte japonesa com a cultura estrangeira. Foi também uma alegria poder preparar decorações e flores para o tokonoma da sala de chá, com coisas que só seriam possíveis no Brasil.

Comecei a aprender a Cerimônia do Chá em São Paulo, e poder participar do Chaji do Meio-Dia foi uma experiência maravilhosa e inesquecível.

Gostaria de expressar a minha profunda gratidão a todos da Urasenke do Brasil.

Muito obrigada!

IMPRESSÕES DA ANFITRIÃ – TEISHUHara, Kaori

Fui anfitriã em uma cerimônia de chá pela primeira vez, e no início estava muito preocupada.

Os visitantes eram de diferentes culturas formados por brasileiros, nikkeis e japoneses, que para mim, que sou uma japonesa residindo temporariamente no Brasil, foi uma experiência raríssima que não teria tido a oportunidade se não tivesse aprendido a cerimônia de chá. Para expressar a minha gratidão por este maravilhoso encontro, escolhi o tema「ご縁に感謝」ou “gratidão pela oportunidade”.

O meu grande interesse foi como deixar os visitantes felizes. Em particular, queria que o Sr. Klécio conseguisse sentir o outono no Japão e apreciasse esta estação. Imaginando a abundância da colheita de outono, decorei a sala de espera com o desenho de colheita do cacau, e também com as folhas caídas, o cacau e a castanha expostas abaixo.

Nos treinamentos do dia a dia, ficamos preocupados em seguir os procedimentos da cerimônia do chá, porém aprendi também que tudo é uma questão de direcionar e sincronizar os procedimentos para apreciar um delicioso chá.  

Apresento os meus sinceros agradecimentos por esta importante oportunidade que tive, pela gentil cooperação que recebi na escolha do material a ser usado e pela valiosa orientação que recebi dos professores. Muito obrigada!

 

Janeiro de 2022

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