- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Shôgo Chaji de 28 de junho

Tendo em conta que ainda continua a pandemia de coronavirus, planejamos realizar, a partir do mes de junho, alguns Shôgo Chaji (Cerimônia do Chá Formal do meio-dia) e serão apresentadas em ordem.

 

SHÔGO CHAJI de 28 de junho

No dia 28 de junho aconteceu o Shôgo Chaji do teishu (anfitrião) Klecio Sôwa Oliveira dos Santos.

Abaixo estão as impressões dos participantes.

Klecio teve como ideia, realizar o chaji da época de wabi em outubro no Japão. O processo de preparo do chá (temae) realizado foi o nakaoki (que aproxima o fogo para os convidados), e em um braseiro de ferro yatsureburo (que parece desgastado).

Algumas fotos serão postadas.

IMPRESSÕES DO CONVIDADO PRINCIPAL – SHÔKYAKU – Fabio Enzo Fukuda

Já havia participado de poucos chaji no Japão, mas este foi meu primeiro aqui no Brasil. Também foi a minha primeira experiência como shôkyaku (convidado principal).

Fiquei bastante impressionado com todos os detalhes que foram pensados pelo anfitrião, como a escolha dos utensílios, o arranjo do nakaoki aproximando o fogo para os convidados, deu a atmosfera de “nagori” 名残, resquícios do final de outono, e a preparação do doce principal omogashi feito à mão pelo próprio anfitrião.

Foi essencial a instrução do Hayashi Sôichi sensei, uma vez que era um chaji okeiko. Com tantos detalhes envolvidos e diferentes aspectos envolvendo tanto anfitrião quanto os 3 convidados, o Sôichi sensei nos conduziu de maneira muito calma, permitindo que nós tivéssemos um tempo agradável, sem a pressão de fazer tudo perfeitamente.

Como foi o primeiro chaji do anfitrião quanto para os outros convidados, o importante é participar para aprender e entendermos como o que praticamos no okeiko se aplica e funciona no contexto do chaji, que é a forma mais completa da hospitalidade omotenashi japonesa. 

IMPRESSÕES DA SEGUNDA CONVIDADA– JIKYAKU – Wanda Sanchez Tatiyama

A primeira vez que sou convidada para um chaji: como será, como deverei proceder no kaiseki? E depois?

Aquietei meu coração e num dia claro de junho, fui à reunião.

Foi um momento único entre o grupo, unidos por um caloroso anfitrião e assistente, e com o apoio e orientações do Sôichi sensei, senti que todos nós alcançamos o propósito: um momento único, que não se repetirá, partilhando simplesmente uma saborosa refeição e um chawan de chá.

Gratidão por trilhar mais um passo no Chadô.

IMPRESSÕES DA ÚLTIMA CONVIDADA – TSUME – Takako Hashimoto 

O encontro do chá acabou hoje e foi muito bom.

Foi a minha primeira cerimônia de chá formal, e fiquei muito animada e ao mesmo tempo preocupada. Foi uma experiência maravilhosa, na qual fiquei impressionada e que ocorreu tudo bem, mas me deixou um pouco esgotada.

Fiquei preocupada por diversas coisas, como por exemplo: se conseguiria vestir o kimono sozinha em casa, se chegaria a tempo no local, se cumpriria bem a minha função de tsume (última convidada), se poderia suportar estar sentada sobre os calcanhares (seiza), por um longo tempo, mas graças a ajuda do mestre Sôichi, do convidado principal, o shôkyaku Fábio, e outros, tudo correu bem.

Também foi maravilhosa a refeição kaiseki servida no chaji, me satisfez completamente. Acredito que tenha sido trabalhoso para o anfitrião Klécio, mas ele é uma pessoa segura, fiquei profundamente comovida no processo do preparo do chá (temae) que aconteceu com fluidez e com muitos utensílios maravilhosos que nos apresentou.

Porém, senti um pouco de pena do assistente do anfitrião, o hantô, mas esse papel também é importante.

Expresso minha sincera gratidão ao mestre e aos professores pelas diversas planificações elaboradas. Oro pelo sucesso dos encontros do chá que serão realizados algumas vezes depois deste.

IMPRESSÕES DO ASSISTENTE – HANTÔ – Iuzo Yokobatake 

Pela primeira vez na minha vida pude vivenciar um Chaji

Desde que comecei a praticar o caminho do chá, eu só via esse termo em livros. Finalmente chegou o grande dia de vivenciar na prática. Estava muito ansioso. Eu ainda tive a sorte de ser o hantô do chaji.

Sendo o assistente do anfitrião, participei de cada detalhe da cerimônia, desde os mais simples até os mais complexos. Me senti muito honrado e realizado. Tinha que cumprir o meu papel sem aparecer nenhuma vez na frente dos convidados, sempre atrás das paredes, um sentimento de entrega total. Tudo feito com muito carinho literalmente o termo “omotenashi” (hospitalidade). Foi um momento muito especial e único, o verdadeiro significado da palavra “ïchigo-ichie” (um encontro, um momento único).

Obrigado aos senseis da Urasenke por terem dado esta oportunidade única para mim e todos nós, alunos da Urasenke.

IMPRESSÕES DO ANFITRIÃO – TEISHU – Klecio Sôwa Oliveira dos Santos 

Quando eu ainda estava na faculdade, via minha vida como um mar agitado e eu era como um barco à deriva, sem saber que rumo tomar. Meu irmão caçula havia morrido de câncer, meu pai de acidente de carro menos de um ano depois, minha família passava por problemas financeiros e eu, como filho mais velho, me sentia na obrigação de assumir o papel de cabeça da casa, embora ainda fosse jovem demais para saber como fazer isso.

Foi nesse contexto que me encontrava quando me sentei em seiza pela primeira vez numa sala de chá em Curitiba. Não sabia absolutamente nada do mundo do chá, nada mesmo. Não conhecia a história, nem as regras, nem tão pouco o propósito, mas sem nada saber, eu senti! Senti uma paz que aquietou meu coração, trouxe calmaria em meio a tempestade, minhas lágrimas cessaram. naquele dia começou minha caminhada. Mais que querer fazer chá, eu precisava fazer chá! Era meu arrimo!!!

Desde então, sempre tive o desejo de poder oferecer uma tigela de chá que fizesse a diferença aos meus amados; aquela tigela que os fizesse deslumbrar a paz que senti naquele dia abençoado e que mudou meu caminho. Para tal, tenho estudado dentro de minhas limitações tudo o que posso, mas, estando no Brasil onde somos poucos praticantes e, morando longe da sede da Urasenke, caminho a passos de tartaruga…

Para minha felicidade, há dois meses recebi o convite para participar de uma aula de chaji, minha primeira, e já com a grande responsabilidade de assumir o papel de teishu. Entrei num misto de felicidade e nervosismo que me paralisaram: queria muito participar, mas tinha grande medo de fracassar e assim, como numa fuga, fui vendo os dias se passarem sem conseguir definir uma estratégia real de como materializar esse encontro. Foi nos últimos dias, cinco para ser exato, que com a ajuda de meus professores, notadamente Bertha-sensei e Sôen-sensei, que finalmente vi nossa reunião tomar forma. 

Começando pela escolha do temae, passando pela escolha dos utensílios, indo pros assuntos práticos como fazer a forma das cinzas, carregar tudo que seria usado na sala de chá em meu carro, dirigir por 7 horas de Londrina até a capital tomando cuidado para não desfazer as cinzas no caminho, descarregar e desembalar tudo no Bunkyo e ainda voltar para casa do meu irmão onde me hospedei e cozinhar o koshian e nerikiri que mais tarde usaria no omogashi (deixei por último para ficar muito fresquinho), tudo parecia fluir.

E então chegou o dia; que frio na barriga. Despertei às quatro da madrugada e já não consegui dormir mais. Bem cedo me dirigi até o chashitsu e logo comecei a moldar os doces. Ficaram horríveis, hahahaha, o nervoso endureceu minhas mãos, parecia que eu tinha artrose, hahahaha. enfim, depois de muita oração, ficaram prontos. e aí algo inusitado aconteceu: até então eu não tinha um jittoku para usar e meus professores, chamando para uma sala reservada, me presentearam com um! outra emoção! Eu senti o peso da responsabilidade naquele momento; todos contavam com meu desempenho. E lógico, foi o que bastou para travar, kkkkkkkkkk. Se sabia algo até aquele momento, deixei de saber… me senti novato mais uma vez!

E o tempo não pára: os convidados chegaram e nosso encontro começou. Foram muitas novidades, muitas dicas aprendidas, muitas lições mesmo, entre elas a de não tomar saquê em jejum!!! o danado sobe como rojão!!! imaginem a cena: a certa altura, depois de ter tomado o saquê servido a mim pelo meu shôkyaku, continuei servindo meus convidados, mas com as pernas bambas, kkkkkkkk. Porém, até isso foi providencial; eu relaxei e quando a segunda parte do chaji (goza) teve início, eu estava finalmente dentro do espírito. Preparei koicha para meus convidados enquanto o carvão no braseiro brilhava esplendorosamente e o kama cantava dentro de nossa sala. No gozumi (2ª cerimônia do carvão), para trazer a presença de minha sensei, dona Teruko, a qual me iniciou nesse caminho, usei uma peça de carvão, o wadô, que ela me presenteou 20 anos atrás e que guardei para usar no meu primeiro chaji. Ah, como ele ficou lindo fazendo-nos pensar num crisântemo enquanto queimava rubro e se transformava em cinzas; ichigo-ichie. Por fim, dei início ao usucha e com imenso prazer, recebi o convite de meu shôkyaku para tomar chá com meus convidados. quando tudo terminou, momento de realização, sentamos irmanados para posar para uma foto de recordação. Eu estava em paz.

Não faço ideia se meus convidados sabem da emoção que senti, nem do significado em minha trajetória que esse encontro teve, mas sou muito grato a eles, a meu hantô (assistente) e professores. E não queria terminar esse relato sem comentar que não deixei passar em branco a consideração de meu shôkyaku Fukuda-san em delongar um pouquinho mais o usucha com seu pedido de “gojifuku” na intenção de desfrutarmos mais tempo o braseiro com tanto significado para mim, a elegância que minha jikyaku Wanda-san emprestou a nossa sala com suas vestes perfeitas, a leveza que minha tsume Hashimoto-san trouxe a reunião com seus comentários leves e bem humorados desfazendo com maestria momentos de tensão quando os inevitáveis erros aconteciam, ao carinho que vi minha professora Sôen dedicar a essa aula e a diligência sempre delicada e respeitosa do professor Sôichi.

Agosto de 2021

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