- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Shôgo Chaji de 5 de julho

No dia 5 de julho aconteceu o Shôgo Chaji que teve como anfitriã a professora Chaki Sôki.
Vamos apresentar as impressões dos participantes.
Desta vez, Chaki sensei, convidou-os com pensamento de『謝茶』shacha – “gratidão pelo chá”.
Nele mostra o sentimento de felicidade por ter superado a doença e também, continuar o caminho do chá.

 

IMPRESSÕES DO CONVIDADO PRINCIPAL – SHÔKYAKU – Iumi Sôyû Takeda

No dia 05 de julho fui convidada para o chaji da professora Chaki Sôki, para comemorar a recuperação da doença, e o retorno à Prática de Chá.

Tive uma experiência de chaji ajudando a minha avó, Sôhô Takeda, minha primeira sensei. Fazia muito anos que não participava de um chaji.

chaji começou as 11h30 em que fomos para a sala de espera (machiai) onde pudemos tomar um delicioso chá quente com sakura servido pelo hantô Marcel Ueno.

Após alguns minutos, nossa anfitriã nos cumprimentou silenciosamente e eu e mais 3 convidados (Marina Tikazawa, Welbi Lacerda e Milena Hama) nos dirigimos ao tsukubai (pia de pedra).
Logo, ao adentrar na sala, o kakejiku nos recepcionava com a frase:

白珪尚可磨 (hakkei nao migaku beshi) “A joia deve ser continuamente polida”*.

Depois do kaiseki, participamos da 1ª cerimônia do carvão (shozumi) e a seguir nos foi servido um delicioso doce wagashi.

No intervalo aguardamos no banco de espera (koshimachiai) e após alguns minutos pudemos ouvir o soar do gongo.

Retornamos para a sala onde fomos recepcionados por um arranjo de camélia vermelha que me fez lembrar o pé de camélia, plantado no jardim pela minha avó. Apreciamos o delicioso koicha ouvindo o som do kama.

A seguir a Chaki sensei preparou o gozumi para arranjar o carvão pela última vez, e depois disso trouxe uma caixa com apetrechos para fumo (tabakobon) que deixou na minha frente. Após saborear o usucha, pudemos relaxar e conversar um pouco sobre os utensílios usados nesta reunião.

Foi muito emocionante quando terminou, verdadeiro ichigo-ichie, um encontro que não irá mais se repetir.

Muito obrigada pela oportunidade.

*Nota: a caligrafia do kakejiku sugere que o Caminho do Chá não tem fim, aquele que o segue deve incessantemente aperfeiçoar-se nele. 

IMPRESSÕES DA SEGUNDA CONVIDADA– JIKYAKU – Marina Tikazawa 

O convite para participar do chaji para o mês de julho foi inesperado para mim e também para o grupo. Porém foi muito bom. 

Porque o ritual na sala de espera, a purificação com a água antes de entrar na sala da cerimônia do chá, apreciação da poesia do shikishi, do rolo de caligrafia, da flor do chabana e dos utensílios, foi muito diferente e o koicha estava delicioso. 

O almoço estilo kaiseki estava maravilhoso. 

Um dos utensílios que achei muito interessante foi o descanso para a tampa (futaoki). Aliás eram 2 futaoki “Ikkanjin” e “Yagaku”. Não lembro com detalhe, mas o Yagaku era bastante diferente do usual, um modelo que nunca tinha visto.  

Parabéns 

Toda equipe 

Muito obrigada

IMPRESSÕES DO TERCEIRO CONVIDADO – SANKYAKU – Welbi Lacerda 

Não posso negar que o tempo que antecedia o chaji, encontrava-me um pouco ansioso! Encontros como esses, que incluem muitos detalhes, não são comuns e, eu, como aluno, apesar de meu esforço e estudo, carecia-me, ainda, de algumas informações sobre como me portar no kaiseki para aproveitar de forma calma o momento, entretanto ao perceber que o Sensei Soichi, iria, se necessário, auxiliar-nos, fiquei isento de tal ansiedade. O apoio calmo e tranquilo do Sensei foi, para mim, muito importante, garantindo uma experiência serena durante todo o chaji

No chaji, tive uma sensação de tempo suspenso (atemporalidade). É um tempo separado do tempo, da percepção cotidiana dos acontecimentos dispostos em sequência cronológica. Ironicamente, apesar do sentimento “atemporal” que senti, sei que o chaji foi cuidadosamente controlado. O preparo da comida, o acender do fogo, o servir do chá, tudo depende de um tempo tão preciso quanto uma orquestra, a anfitriã selecionou o tempo, cenário, tema, utensílios, cardápio, doces, chá e todos os outros componentes necessários para fazer do chaji uma experiência única! 

chaji, para mim, foi repleto de sensações, cheiros, gostos, sabores, sons, contemplações e paz! 

Para finalizar, durante todo o tempo na presença da Chaki sensei, uma emoção boa tomou conta de mim, foi possível perceber a naturalidade e a calma que só o esforço e o tempo constroem! 

kakejiku presente, no qual a sensei explicou que uma pedra brilhante precisa ser polida, dando a ideia de que por mais que se saiba algo é necessário estudar, participar desse chaji foi um estímulo a querer a estudar sempre. 

Sou muito grato por ter sido convidado e participar! 

IMPRESSÕES DA ÚLTIMA CONVIDADA – TSUME – Milena Yuri Hama 

Bonita, delicada e efêmera, como as flores de cerejeira e a neblina que marcam o inverno em São Paulo: essa é a memória que carrego comigo da cerimônia do chá formal (Chaji) oferecida pela Chaki Sôki sensei no dia 5 de julho de 2021.  

Símbolo da esperança, renovação e otimismo no Japão, a florada das cerejeiras em gratidão pela saúde recuperada e pela vida, foi o tema do Chaji.  

As flores de cerejeiras apareceram flutuando na água quente que bebemos logo ao chegar, além de aparecer no omogashi (doce principal) e no higashi (doce seco) e, indiretamente, no chawan rosado (Shino-yaki) usado para servir koicha.  

Outras flores foram aparecendo ao longo da cerimônia – o chabana com botão de camélia vermelha e com galhos de ameixeira, o kōgō esculpido com desenhos de peônias, o shifuku com padrão de flores de damasco (Rikyū donsu), o natsume e o chawan usado para servir usucha decorados com flores.  

kama com relevo de praia de pinheiros – símbolo de longevidade e resistência – e o kakejiku com os dizeres 白珪尚可磨 (hakkei nao migaku beshi) “Mesmo a joia mais brilhante precisa ser lapidada” me fizeram pensar sobre a determinação que a Chaki-sensei demonstrou em relação à sua própria saúde.  

Fez-me pensar também sobre o enorme esforço que ela (teishu), junto com o Marcel Ueno (hantō), Sōichi-sensei, Sōen-sensei e Sōkei-sensei, fizeram para acolher de forma tão hospitaleira a nós convidados – Iumi Sôyû Takeda, Marina Tikazawa, Welbi Lacerda e eu.  

No segundo ano de pandemia, esse Chaji foi um presente único: uma joia e celebração de gratidão pela vida, tanto para a anfitriã como para todos nós que participamos. Ichigo-ichie!

IMPRESSÕES DO ASSISTENTE – HANTÔ – Marcel Ueno 

Até então só havia visto uma cerimônia de chaji apenas nos vídeos da internet ou nos livros sobre Chadô, para mim foi uma experiência gratificante. 

Desempenhei a função de hantô realizando os serviços dos bastidores como mizuya, jardim e utensílios. Ainda não tenho uma experiência suficiente, creio que talvez até tenha atrapalhado um pouco a Chaki sensei, teishu desta cerimônia, mas dentro de minhas possibilidades tentei ajudá-la. 

Vendo apenas as fotos publicadas nos livros, não é possível ter noção de quanto trabalho se dá para realizar um chaji. Falhas e erros certamente aconteceram, mas sem uma experiência como esta não é possível entender o espírito do chá, assim penso eu. 

Serviu de estudo de como é o desenrolar da cerimônia, inclusive a utilização dos utensílios de kaiseki. Para mim, como hantô, o que foi mais difícil era ter de imaginar os passos do anfitrião e convidados sem estar presente dentro da sala de chá. Com os conhecimentos adquiridos nesta oportunidade, desejo estudar mais o caminho do chá. 

Achei uma experiência inesquecível, agradeço profundamente os professores e convidados da cerimônia. 

IMPRESSÕES DA ANFITRIÃ – TEISHU – Profa. Chaki Sôki 

Finalmente chegou, 5 de julho, o dia de realizar o chaji e dar as boas-vindas aos convidados. 

Foi um dia maravilhoso com um bom tempo desde manhã cedo que me fez sentir como um presente concedido de Deus.    

Logrei chegar à esse dia graças aos professores (Sôichi, Sôkei e Sôen) que me orientaram de como o anfitrião pode transmitir o seu sentimento ao recepcionar os convidados, o sentimento que se deve de ter ao escolher o rolo de caligrafia (kakejiku) e os diversos utensílios.  

Agradeço a oportunidade que me deram, pois estava preocupada por causa da minha condição física e pela idade, mas fui capaz de terminar com segurança, em uma atmosfera agradável enquanto estava envolvida nos sentimentos calorosos de todos.   

Meu sincero agradecimento a este momento único. (ichigo-ichie). 

Nota da redação: 

Há cinco anos atrás, a professora Chaki foi acometida pelo câncer. Apesar da grave situação, ela continuou vindo aos okeiko o máximo que podia. 

No chaji desta vez, como anfitriã, quis celebrar a sua recuperação dando-lhe o significado de 《謝茶》shacha – “gratidão pelo chá”. 

Setembro de 2021