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Entrevista com Kazuo Wakabayashi – Prévia da Comemoração do 110º Aniversário da Imigração Japonesa no Brasil

A 11ª entrevista com personalidades no Brasil apresenta o artista plástico autor da logomarca alusiva à comemoração, Kazuo Wakabayashi.
Perfil

Nasceu em Kobe, província de Hyogo, e chegou ao Brasil há 56 anos.
Família: Esposa e três filhos

Entrevistador: O que o levou a ser pintor?

Comecei a pintar em torno dos 18 anos e tive sorte no começo da minha trajetória como pintor, pois recebi um prêmio na exposição de Hyogo aos 21 anos. Além disso, minha irmã mais velha também era pintora, e na minha casa havia uma atmosfera propícia para desenhar.

Embora a princípio quisesse ser um arquiteto, o Japão é diferente do Brasil, e se falar de escola profissional de desing de arquitetura, naquela época havia apenas o que agora é a Universidade Nacional de Belas Artes e Música de Tokyo (na época, Escola de Belas Artes de Tokyo).

Eu apreciava a pintura, mas não tinha estudado desenho e nem estudei a sério os fundamentos da pintura. Para entrar na Universidade Nacional de Belas Artes e Música de Tokyo, era necessário o estudo dos dois, e naquela época havia a Escola de Pintura Kawabata em Tokyo, que frequentei por cerca de dois anos até finalmente passar a praticar. Era um mundo difícil. O professor da escola me dizia: “É melhor não fazer um exame à toa, já que na sua família tem apenas você e sua mãe. Se você quiser ir de todo jeito, pelo menos estude desenho com afinco por um ano e só depois disso preste o exame.”

Eu não sabia que para me tornar arquiteto teria que estudar desenho, então voltei a Kobe para começar a estudar, e ao mesmo tempo continuava a pintar. Muitos de meus colegas eram de 7 a 8 anos mais velhos e me disseram que “a arquitetura e a arte andam juntas. Não há nenhum pintor que no início dos seus vinte anos tenha ganho o Grande Prêmio de Hyogo, então que tal continuar pintando, como você fez até agora?” Assim, desisti do caminho de arquiteto e passei a me dedicar à pintura.

 

Entrevistador: Houve algum ponto decisivo em sua vida após começar a pintar?

Certa vez, no fim da guerra, fomos evacuados para perto de Hikone, e todos os meses eu ia com minha mãe a Kobe para tratar de algumas questões, como receber o aluguel. Certo dia, houve um grande ataque aéreo bem quando estávamos lá. Eram aproximadamente às 8h da manhã quando o alarme de ataque aéreo soou. Minha vida foi salva graças ao abrigo antiaéreo, um tipo de toca construída por meu tio para onde nós fomos, mas todos os outros foram atingidos. Realmente parecia o Inferno. Foi uma experiência de guerra que tive na época de estudante do ensino fundamental.

Pouco tempo depois vim ao Brasil, e tive a oportunidade de fazer uma exposição individual ao ser escolhido pelo Museu de Arte Contemporânea da Organização dos Estados Americanos, localizado em Washington, junto com escritores da América do Norte, América Central e América do Sul. Em junho, fui a essa exposição e, na saída, havia muitas rosas vermelhas floridas na frente do prédio.

De repente, percebi que aquele dia era 5 de junho, e, vendo as rosas, lembrei-me de quando, ao sair do abrigo antiaéreo a caminho da escola, reparei que ao meu lado uma família carregava uma maca e sobre ela descansava uma rosa vermelha. Esta flor vermelha de que falo é a grande origem do meu trabalho como artista. Naquele mesmo dia tinha visto uma rosa e agora me deparava com um jardim bem florido. Como um dos cidadãos que passou por um ataque aéreo, fui à capital do país inimigo como representante de um terceiro país, o Brasil. Nesse momento, pensei no que representam a raça e a nacionalidade para os seres humanos.

Durante a guerra, pelo fato de em casa só ter a minha mãe, passei por diversas situações, e, como alguém que criava coisas, tive experiências gratificantes durante a minha vida, pelas quais sou realmente feliz e vivo agradecendo sempre.

Meus filhos nasceram numa época de muita paz. Talvez eles tenham se deparado com momentos tristes ou choques sociais, mas eles não enfrentaram as tragédias que ocorreram no hemisfério Norte com os europeus e com nós, japoneses, algo que vai além da natureza humana. Acho que daqui em diante uma época como aquela não voltará.

 

Entrevistador: Há alguma impressão que permaneça em seus trabalhos até agora?

O trabalho que mais gostaria de realizar e que pensei que seria bom, era um trabalho onde pudesse transmitir a minha mensagem de alguma forma. Mas de início, não tinha pensado na pintura como uma profissão. Não apenas eu, mas a maioria dos que aspiravam a arte também eram assim, porque quase ninguém pensava que poderia ter seu sustento com a pintura. Tenho a sensação de que as coisas ainda são como eram no Japão. Aquilo com que eu mais trabalhava eram os estênceis de poesias de um amigo e de alguns pintores, ou seja, com a criação em mimeógrafo de uma miscelânea de poesias e pinturas que eram distribuídas nas estações de trens. Expus quadros em exposições, além de uma grande pintura junto a uma organização de arte japonesa a que pertenci, a Niki-kai do Museu Metropolitano de Artes, mas, mais que isso, aquilo no que mais trabalhei e que até hoje vejo assim foi na criação desse conjunto de poesias e pinturas, através do qual podíamos transmitir nossas mensagens e que nós mesmos distribuíamos nas estações de trens.

 

Entrevistador:  Que pensamento você introduziu na logomarca?

Quando me encomendaram a logomarca, fiquei pensando em recusar, mas como vieram os dois, o senhor Kikuchi[presidente do comitê executivo da comissão para comemoração dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil]e a presidente do Bunkyo, não tinha como recusar. Será que fui fraco? Foi um pouco sofrido, mas percebi que este trabalho na realidade era de desenho gráfico. Eu sou pintor, então posso pintar, mas, sendo uma logomarca, um trabalho voltado para milhões de pessoas, pensei que a carga era pesada. Por muitos dias fiquei sobre a mesa pensando: “Ah, não é assim, nem deste jeito tampouco… Meu Deus!”, e, enquanto me debatia pensando em por que aceitei… acabei fazendo. (risos)

Como é uma logomarca, usar só letras e números não dá impacto, não acha? Por ser o 110º aniversário, era necessário o número 110, mas não queria que este fosse o tema, por isso pensei em usar outra forma.

Primeiro, precisava de uma forma que simbolizasse o Japão, e a melhor delas é a dobradura do grou, pois milhões de pessoas sentem que estão de frente para o país ao vê-la. Outro motivo é que eu tenho várias pinturas com dobraduras do grou, assim pensei em tê-lo como tema.

O mais trabalhoso foi combinar o vermelho e branco do Japão e o verde e amarelo na dobradura do grou, um design com o qual já havia trabalhado. Seria desagradável se fosse algo semelhante, então elaborei uma combinação de duas dobraduras de grou, uma maior, com as cores do Japão, e outra menor, com as cores brasileiras, dando assim um contraste.

Já me perguntaram por que a dobradura do Japão é maior e a do Brasil menor, mas isto é uma composição, e, se tudo fosse do mesmo tamanho, não seria um design. Além disso, como é uma marca do 110º aniversário da imigração japonesa, o Japão é o principal, por isso o tamanho é maior. Ainda não tenho certeza se este design foi bom ou ruim.

 

Entrevistador: Qual é sua relação pessoal com a Cerimônia do Chá?

Sempre sou gentilmente convidado para a primeira cerimônia de Ano Novo – Hatsugama, mas sinto-me constrangido ao dizer que nunca estudei a maneira de se realizar uma cerimônia do chá. Só me sirvo do doce e o chá que me são oferecidos. Mas, na minha casa, minha esposa gosta, de modo que sempre temos matcha, o chá verde em pó, e quase todos os dias tomamos chá a nosso próprio estilo.

Embora eu seja inexperiente, sinto admiração pelo chá e por essa cultura que o tem como foco.

 

Entrevistador: Qual é a sua filosofia de vida?

Não tenho um lema em particular, mas algo que sempre digo a mim mesmo, que quero dizer às crianças, apenas um pensamento de um pai de uma família comum, é: “Não faça com os outros aquilo que não quer que façam contigo”.

 

Não faça com os outros aquilo que não quer que façam contigo

 

 

Muito obrigado por nos ter concedido esta entrevista.

 

Julho de 2017