- A Paz Através de Uma Tigela de Chá -

Notícias do Japão: Viver em Kyoto, Aprender Sobre Kyoto

No final de março as flores de cerejeira começam a florescer em cinco minutos. Minhas felicitações ao representante oficial no Brasil da Fundação Urasenke do Japão, à “Caravana ao Japão para Rikyû-ki Chakai 2016” chefiada pela professora Augusta Kiyomi (Sôsei) Takeda e aos demais participantes que vieram a Kyoto de tão longe, uma viagem um tanto árdua.

Conforme as orientações recebidas, me dirigi ao hotel em Kyoto e fui recebida pelos membros do grupo.  Depois de um breve encontro e com fome, saímos a procura de um local para jantar. Difícil, mas nas imediações do hotel foi possível achar um restaurante de bom tamanho onde deu para nos satisfazermos, além de termos o prazer de chegar sem nenhum contratempo e nos reencontrarmos.

Como voluntária sênior da JICA – Agência de Cooperação Internacional do Japão (Japan International Cooperation) para a Comunidade Nikkei, foi-me permitido atuar durante dois anos, de 2009 a 2011, como voluntária nas atividades do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil. Desde aquela época, bem em cima do escritório do Museu se encontra o Centro de Chado Urasenke do Brasil, e tive a oportunidade de receber orientações do Mestre Sôkei Hayashi e da Profa. Sôen, o que me ajudou muito nos meus estudos.  Até hoje continuo a me comunicar com eles. Realmente me senti emocionada pelo fato de poder me reunir com aquelas pessoas tão prezadas que outrora me ajudaram tanto, como as professoras Ikeda e Matsubara. Inclusive, com a professora Takeda, juntas compartilhamos momentos de haiku (poema japonês). 

Santuário Yasaka

Santuário Yasaka

O dia seguinte foi um dia livre aproveitado pela maioria para passear a pé pelo Santuário Yasaka no bairro de Gion.  No meio do caminho, dividiram-se em grupos menores e deslocaram-se cada um a outras áreas pretendidas.  Eu me entretive acompanhando as professoras Ikeda e Maki a fazer compras de utensílios de cerimônia do chá pela região, que se diz ser a “cozinha de Kyoto”, compreendida entre o mercado Nishikikoji até a rua Karasuma e o templo budista Rokkakudo.  Kyoto tem também lembrancinhas próprias, mas fiquei admirada e ao mesmo tempo surpresa com a certeza e perspicácia no olhar daquelas que praticam o chadô ao procurar diversos utensílios com muita atenção para avaliar e decidir o que comprar.

Não pude participar do Rikyû-ki – Cerimônia em Memôria ao Grão-mestre Rikyû, mas me senti aliviada ao saber da grande satisfação de todos por receber especial consideração do Grão-mestre Daisôsho Genshitsu e do Grão-mestre Zabôsai.  Desejo de coração que esta valiosa experiência seja vivificada depois no Chadô do Brasil.  

Desde meu retorno do Brasil em 2011, me dedico em Kyoto à pesquisar sobre a história da imigração brasileira.  E no cotidiano de minha vida como pesquisadora, sinto que o “espírito de wa (harmonia)” é muito respeitado. Incluem-se a isto também os fatores turísticos de Kyoto, mas independentemente dos santuários e templos famosos bem como das lojas de longa tradição de doces japoneses e de cerâmica, as reuniões de cerimônia do chá (chakai), acontecem de forma muito natural.  Não pensem que para participar no chakai precisam estar a rigor, de kimono, não é rígido assim; podem encontrar por casualidade um local de chakai e, mesmo de roupas comuns, podem participar do chá sem encontrar resistência e deleitar-se com um chá ainda mais gostoso.  Desta forma, a cidade de Kyoto está sempre em um ambiente de “harmonia, paz” – (wa – nagomi) onde as pessoas adoram chá e servem-se mantendo a etiqueta de chá.  Como gosto de Kyoto!

Na estação JR de Kyoto pode-se avistar todo dia muitas mulheres perfeitamente trajadas de kimono.  É divertido imaginar se elas têm relação com o caminho do chá (chadô) ou com o caminho das flores (kadô) ou talvez com alguma outra expressão artística.  Assim, também vemos alguns grupos de turistas (especialmente os turistas estrangeiros), ou casais de yukata (kimono de verão) caminhando pela cidade, nos templos e santuários ou no Pontochô e na rua Hanamikoji que é onde se encontram as maiko (aprendizes de geisha); por isso penso que Kyoto é única por nos oferecer uma cena de “harmonia, paz” – (wa – nagomi) que acontece diariamente.

 

 

O bairro Nishijin abrange uma variedade de comércios relacionados com fibras têxteis como lojas de bordados de emblemas de família, lojas de folhas de ouro, atacadistas de seda crua, lojas de tingimento, de tecelagem, mestres de tingimento no estilo Yûzen, costureiros, negociantes de panos de kimono.  Caminhar lentamente pela cidade durante o dia é uma das maneiras prazeirosas e recreativas de se conhecer Kyoto. Algumas pessoas já devem saber mas, a empresa de fiação de seda Bratac da cidade de Bastos, no estado de São Paulo, Brasil fornece seda crua que é utilizada na tecelagem em Nishijin.  A seda crua é uma das matérias primas do kimono; por isso o Brasil e Kyoto estão conectados.  Kyoto é também uma importante base do intercâmbio Brasil-Japão.

 

Noriko Hanzawa
Formando especial de Pós-graduação da Universidade Feminina de Kyoto

Outubro de 2016

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