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3. Hotaru – Vaga-lume

O vaga-lume começa a aparecer no arquipélago japonês, aproximadamente, a partir da terceira semana de maio, e pode ser apreciado até meados de junho. O tema central do presente artigo é ele. Na publicação anterior escrevi sobre o “Makura no Sôshi” (O Livro do Travesseiro), de Sei Shônagon (965-1017/1025), que começa com “Haru wa akebono” (Da primavera, o amanhecer). O trecho que se refere ao verão, diz:

〈夏は夜。月のころはさらなり、闇もなほ、ほたるの多く飛びちがひたる。
また、ただ一つ二つなど、ほのかにうち光て行くもをかし。〉*

Natsu wa yoru. Tsuki no koro wa saranari, yami mo nao, hotaru no ôku tobi chigai taru.
Mata, tada hitotsu futatsu nado, honoka ni uchi hikarite iku mo wokashi.

“Do verão, a noite. Em especial, os tempos de luar, mas também as trevas, de vaga-lumes entrecruzando-se em profusão. Ou então, os solitários ou mesmo em pares que seguem com brilhos fugazes.”

No período Heian (794-1185), os vaga-lumes já aparecem no panorama japonês. Mais tarde, no período Edo (1603-1868), era possível até comprá-los de vendedores.
Após tornarem-se adultos, os vaga-lumes vivem uma semana e se alimentam apenas do orvalho da noite, num ambiente de águas límpidas e, portanto, muito difícil de ser observado nas cidades. No mundo há aproximadamente 2.000 espécies diferentes de vaga-lumes, e cerca de 43 a 48 espécies deste inseto são do Japão, tais como: Genjibotaru (Luciola cruciata), Heikehotaru (Luciola lateralis) e Himehotaru (Luciola parvula).

Ao que parece, estes pirilampos surgem em dias quentes e nublados, e para observá-los é aconselhável falar baixinho, porque são sensíveis ao som. A maneira japonesa de contá-los é, curiosamente, por cabeças, como por exemplo: “uma cabeça (ittô 一頭), duas cabeças (nitô 二頭) de vaga-lumes”.

Há vários locais no Japão que são conhecidos pela aparição destes insetos bioluminescentes. Alguns deles são: Kijimadaira, na Província de Nagano; Parque Man´yô de Yugawara, Província de Kanagawa; Hotaru-no-sato de Uryu-gun, em Hokkaido. E em outros lugares, dentre os quais: Chinzansô, em Tóquio; Festival do Vaga-lume em Kugayama, Tóquio; Festival do Vaga-lume de Amagi, na Província de Shizuoka; Festival do Vaga-lume de Amanogawa, na Província de Shiga.
Na língua japonesa, algumas palavras incorporam o kanji 「蛍」”hotaru”, tais como: 蛍石 hotaruishi (fluorite)、蛍光灯 keikôtô (lâmpada de luz fluorescente)、蛍光染料 keikôsenryô (tinta fluorescente) etc.

Há um fato histórico na China associado a vaga-lumes. Conta-se que houve um homem chamado Che Yin 車胤 (em jap Sha In), da época da Dinastia Jin Oriental 東晉 317-420 (em jap Tôshin), que às noites estudava com luzes de vaga-lumes e, devido a seu esforço, veio a tornar-se um oficial do alto escalão do governo.
Na literatura japonesa, Akiyuki Nosaka (1930-2015) escreveu “Hotaru no haka” (Túmulo dos Vaga-lumes), uma novela autobiográfica que narra a triste história de um menino que, apesar de perder os pais na guerra, sobrevive com a irmã menor, mas apenas para vê-la morrer de fome no pós-guerra.

Hotaru” é o nome do capítulo 25 de “Genji Monogatari” (O conto de Genji) de Murasaki Shikibu (973 ou 978 a 1014 ou 1031), escrito no Período Heian (794 a 1185), na mesma época da obra citada acima, “Makura no Sôshi” (O Livro do Travesseiro). Nele, há uma passagem em que o personagem principal, Genji, mostra ao irmão menor, Hyôbunokyônomiya, o vulto de sua filha adotiva, Tamakazura, ao soltar vaga-lumes sob o véu da divisória que a velava.

Autora dessa mesma época, Izumi Shikibu, querendo recuperar a afeição do marido que tinha se distanciado dela, foi ao santuário Kibune para pedir por ele. No caminho, ao lado do rio observou uma miríade de vaga-lumes a cintilar, e viu naquele conjunto um espectro de seus próprios sentimentos em relação ao esposo. Compôs o seguinte poema tanka, a partir dessa experiência:

物思へば沢の蛍もわが身より あくがれ出づる魂たまかとぞ見る
Mono omoeba sawa no hotaru mo wagami yori
akugare izuru tama katozo miru

“Perdida em pensamentos
até os vaga-lumes do brejo
parecem-se comigo.

O espírito foge de meu corpo
e vagueia sem rumo.”

Na atualidade, o grupo musical Southern All Stars canta uma canção chamada “Hotaru”, muito apreciada pelos jovens.
Em suma, a sensibilidade poética que se manifesta através da apreciação da paisagem natural, tal como a mística que envolve o vaga-lume, é um dos aspectos que parece caracterizar os japoneses.

___________
NOTA:
A citação textual de O Livro do Travesseiro de Sei Shônagon, foi transcrita diretamente da tradução brasileira de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro. Organização de Madalena Hashimoto Cordaro. São Paulo: Editora 34, 2013, p. 45.

Junho de 2019

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